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Purificar: inteligência, memória e vontade

Saiba como purificar a inteligência, a memória e a vontade, através das virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade.

Purificar a inteligência, a memória e a vontade nos ajudará em nosso caminho de santificação, especialmente para aquelas pessoas que aderiram ao Projeto Segunda Morada. Santa Teresa d’Ávila, ou Santa Teresa de Jesus, nos ensina que devemos purificar gradativamente a nossa alma, ordenar aos poucos o nosso interior, para nos unir a Deus. A este respeito, São João da Cruz, grande místico e Doutor da Igreja, nos ensina que esta “união e transformação da alma em Deus por amor, só [é] realizada quando há semelhança de amor entre o Criador e a criatura”

Para buscar essa semelhança de amor, primeiramente é necessário purificar os sentidos, através da “noite ativa dos sentidos”, com penitências e mortificações, procurando não sentir gosto ou prazer em nada que venha dos sentidos. Este é o passo anterior ao que ensinaremos aqui, e aquelas pessoas que não fazem penitências e mortificações, devem começar o quanto antes, para que primeiramente aconteça esta purificação dos sentidos. A purificação das três potências da alma: inteligência, memória e vontade, da qual trataremos, chama-se “noite ativa do espírito”. Esta nada mais é do que a espiritualização dessas três faculdades humanas, que serão purificadas por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A purificação é necessária porque “toda criatura e todas as suas ações e habilidades não podem chegar até Deus, nem ter com Ele proporção alguma; por esta razão é mister à alma desprender-se de qualquer afeição ao criado, de tudo quanto diz respeito às suas ações e à sua habilidade natural, isto é, de sua maneira de entender, gostar e sentir; para que, rejeitando tudo que se opõe a Deus e lhe é dissemelhante, torne-se apta a receber a semelhança divina”. Quando estas três faculdades se tornarem conforme a vontade de Deus, já não existirá obstáculo para a nossa completa transformação Nele.


Como a inteligência, a memória e a vontade se relacionam com a fé, a esperança e a caridade?
Antes de saber como introduzir as três faculdades da alma – inteligência, memória e vontade – na noite do espírito, a fim de alcançar a divina união, é necessário primeiramente entender como as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, produzem vazio e obscuridade em cada uma das faculdades. As três virtudes teologais se relacionam às três faculdades da alma como seus próprios objetos sobrenaturais, servindo de meio para a alma se unir com Deus, segundo suas mesmas faculdades. Dessa forma, a fé age no entendimento, a esperança na memória, e a caridade na vontade. Para entender esse processo, veremos como “o entendimento se aperfeiçoa nas trevas da fé, a memória no vazio da esperança e, afinal, como a vontade há de sepultar-se na privação de todo afeto para chegar à união divina”. Depois disso, compreenderemos o quanto é importante para a nossa alma, desejosa de prosseguir com segurança no caminho espiritual, apoiar-se às três virtudes que a desapegam e obscurecem com relação a todas as coisas criadas. Este desapego é importantíssimo, pois “a alma, nesta vida, não se une com Deus por meio do que entende, goza ou imagina, nem por coisa alguma que os sentidos ofereçam: mas unicamente pela fé quanto ao entendimento, pela esperança segundo a memória, e pelo amor quanto à vontade”. Para que esta união com Deus aconteça, as três virtudes teologais esvaziam as potências da nossa alma: “a fé no entendimento, obscurecendo-o acerca de suas luzes naturais; a esperança na memória, produzindo o vazio de toda posse; e a caridade operando na vontade o despojamento de todo afeto e gozo de tudo o que não é Deus”

A virtude da fé na purificação da inteligência

A fé nos diz aquilo que não podemos alcançar com o nosso entendimento. A este respeito, a Palavra de Deus nos ensina: “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê”6. Isso significa que a fé é a substância das coisas que esperamos. Pois, ainda que o entendimento receba com firmeza e determinação as verdades que lhe são propostas, estas não se descobrem a ele; do contrário não seria mais fé, porque esta, embora dê certeza, não ilumina o entendimento claramente, senão obscurece-o”. Para que o nosso entendimento esteja disposto à divina união, tem a necessidade de permanecer na pureza e no vazio de todas as coisas sensíveis, desprendido e desocupado de todo conhecimento que não seja o próprio Deus, para que na tranquilidade e em silêncio estabelecer-nos na fé, que é o único meio próximo e proporcionado para a nossa alma chegar à união com Ele. Não se trata de desprezar o conhecimento, como se não tivesse nenhum valor. No entanto, por mais alto que seja o conhecimento humano, até mesmo nas coisas de Deus, este não é nada em relação às verdades divinas. Por isso, ainda que grande seja a nossa inteligência e aprofundados sejam os nossos conhecimentos nas coisas deste mundo e até nas coisas celestes, não devemos nos apegar a nada disso. Esta é a renúncia total de nós mesmos, que Jesus Cristo pediu aos que o quisessem seguir: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Desapegando-nos da nossa inteligência, ordenamos a nossa alma, pois colocamos a fé no seu devido lugar, que é acima da nossa inteligência.

A virtude da esperança na purificação da memória

Ao orientar bem a nossa inteligência na fé, instruímos simultaneamente as outras duas faculdades da alma nas virtudes correspondentes. Dessa forma, “a esperança também põe a memória no vazio e nas trevas em relação às coisas da terra e do céu. Isto não permite dúvida, pois a esperança sempre tem por objeto o que ainda não possuímos. Não mais esperamos o que já possuímos”. Como dizia São Paulo aos Romanos, “ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera?”. Dessa forma, a virtude da esperança produz o vazio da memória, porque se baseia sobre o que não se tem, e não sobre o que se possui. Isto se faz necessário poque “a memória não pode estar ao mesmo tempo unida a Deus e às formas e conhecimentos particulares”, sejam eles de ordem natural ou sobrenatural. Para despojar a memória de todas as formas e imagens, há duas dificuldades que superam as fôrças e as habilidades humanas: a primeira é a de desfazer-se da própria natureza, mediante o trabalho natural; a segunda é a de elevar-se e unir-se ao sobrenatural, o que é impossível às fôrças naturais. Somente Deus pode colocar a nossa alma neste estado sobrenatural. Da nossa parte, devemos dispor-nos e cooperar com a ação divina, na medida das nossas próprias fôrças, o que podemos fazer naturalmente, com o auxílio dado por Deus. Em vista disso, devemos nos afastar das influências da parte do mundo, senão a nossa alma ficará exposta a muitos perigos provenientes das notícias e discursos da memória. “Estes perigos são: ilusões, imperfeições, apetites, juízos, perda de tempo e muitas outras coisas que trazem à alma grande número de impurezas”. A memória também traz à alma imperfeições, quanto recebe, por meio dos sentidos exteriores, diversas impressões: dor, medo, ódio, vã esperança, alegria, gozo, vanglória, etc. “Esses diferentes movimentos são, no mínimo, imperfeições e, algumas vezes, pecados veniais manifestos, que mui sutilmente mancham a alma, mesmo quando as notícias e raciocínios são acerca de Deus”. Se em em nossas orações a memória rejeitar, ao mesmo tempo, as coisas espirituais e temporais, é impossível ter distrações ou lembranças importunas, ou ainda pecados e vícios, pois estas sempre entram por vagueação, devaneios, da memória.

A virtude da caridade na purificação da vontade

Depois de purificar o entendimento, fundando-o na fé, e a memória, firmando-a na esperança, devemos purificar também a vontade em relação à virtude da caridade. Esta virtude opera igualmente o vazio e o despojamento em nossa vontade, levando-nos a amar a Deus sobre todas as coisas. Somente dessa forma podemos cumprir este mandamento divino, desprendendo nossos afetos de todos os bens espirituais e temporais, para concentrá-los somente em Deus. Ademais, a caridade é a virtude que dá vida e valor às obras praticadas sob a luz da fé. Sem a caridade, de nada serviriam estas obras, como disse São Tiago: “Sem as obras da caridade a fé é morta”. Por isso, na noite ativa da vontade, que estabelece esta faculdade da alma na virtude da caridade, devemos obedecer este mandamento divino: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas fôrças”. Pois, esse mandamento impõe a nós o dever de empregar todas as potências, forças, operações e afetos de nossa alma no serviço do Senhor, de modo que toda a habilidade e força da nossa alma sejam dirigidas somente a Ele, conforme o pensamento do rei David: “Guardarei minha força para Vós”. No entanto, quando a nossa vontade não está firme em Deus e depende mais das criaturas, mais essas quatro paixões: gozo, esperança, dor e temor, reinam na alma e a combatem. “Então, com muita facilidade, põe o gozo em seres que não o merecem; espera o que não lhe traz proveito; aflige-se com o que talvez deveria regozijá-la e teme, afinal, onde não há que temer”. Estas paixões, quando desordenadas, produzem na alma todos os vícios e imperfeições, e, quando ordenadas e bem dirigidas, geram todas as virtudes. Consequentemente, “quando a alma as dirige para Deus por um exercício racional, isto é, não se goza senão puramente no que se refere à honra e glória divina, e não põe sua esperança em coisa alguma fora de Deus, não se entristece senão somente com o que desagrada ao Senhor, não teme senão unicamente a Ele, então é evidente que as paixões guardam a fortaleza e habilidade da alma só para Deus”. Dessa forma, a nossa vontade estará bem orientada, pois firmar-se-á na caridade, no nosso amor indiviso por Deus.

Cuidados para não nos perder no caminho

Assim, purificar a inteligência, a memória e a vontade nada mais é que do que ordenar estas faculdades de nossas almas por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Ordenadas por estas virtudes, a inteligência, a memória e a vontade serão auxílio, e não obstáculo, para que alcancemos a nossa união com Deus. No entanto, não nos enganemos, pois esta é uma tarefa árdua, que exige muito do nosso esforço pessoal, que consiste no desapego da inteligência, da memória e da vontade, e necessita principalmente da graça de Deus. Por isso, nos coloquemos neste caminho de crescimento espiritual com determinada determinação, especialmente em nossa oração pessoal com Deus. Ademais, é muito importante saber que o demônio tem como grande porta de entrada a nossa memória. O inimigo “pode acumular, nessa potência, formas, notícias e discursos imaginários; e por tais meios provocar movimentos de orgulho, avareza, inveja, cólera, etc. E também ódio injusto, amor vão e, enfim, de muitas maneiras enganar a alma. Além disso, costuma ele fixar tão fortemente os objetos na fantasia, que falso parece verdadeiro, e vice-versa. Em uma palavra, todas as ilusões e todos os males causados pelo demônio entram na alma pela porta das notícias e formas apreendidas pela memória. Se esta potência, pois, se obscurece em todas as apreensões, e se aniquila em completo esquecimento, fecha completamente a porta aos enganos do inimigo, livrando-se de todos os inconvenientes, o que é grande bem. O demônio nada pode fazer na alma senão por intermédio das operações das potências, principalmente com o auxílio das notícias das quais dependem quase todos os atos da inteligência e da vontade. Se a memória renuncia à sua atividade natural, nada mais é possível ao demônio; pois não acha ele por onde entrar, e assim nada poderá fazer”. Quantos danos nos causa Satanás por meio da memória quando usamos dela: quantas aflições, tristezas e vãs alegrias põe em nossas relações com Deus ou com o mundo, e quantas impurezas lança em nosso espírito. Dessa forma, o demônio nos afasta e distrai do sumo recolhimento que consiste em ocupar as nossas almas, segundo as suas potências, no único Bem supremo e incompreensível, que é Santíssima Trindade. Para fechar a porta para Satanás e evitar grandes males, a nossa memória precisa estar firmemente enraizada na virtude da esperança, e não nas esperanças e máximas deste mundo. Por fim, nesse caminho de crescimento espiritual, olhemos para a Virgem Maria: modelo de fé, esperança e caridade; nossa intercessora em todas nossas necessidades; e Mãe, que nos conduz sempre para a vontade do Senhor. Maria Santíssima, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, rogai por nós!
Natalino Ueda, escravo inútil de Jesus por Maria.

Links relacionados: 

FORMAÇÃO CANÇÃO NOVA. Biografia de São João da Cruz.
TEXTOS CARMELITANOS. A subida do Monte Carmelo.
TODO DE MARIA. A fé, a esperança e a caridade de Maria.
Referências:
1 SÃO JOÃO DA CRUZ. A Subida do Monte Carmelo, II, V, 3.
2 Idem, II, V, 4.
3 Idem, II, VI, 1.
4 Idem, ibidem.
5 Idem, II, VI, 2.
6 Heb 11, 1.
7 SÃO JOÃO DA CRUZ. Op. cit., II, VI, 2.
8 Mc 8, 34.
9 SÃO JOÃO DA CRUZ. Op. cit., II, VI, 3.
10 Rm 8, 24.
11 SÃO JOÃO DA CRUZ. Op. cit., III, II, 4.
12 Idem, III, III, 2.
13 Idem, III, III, 3.
14 Tg 2, 20.
15 Dt 6, 5.
16 Sl 58, 10.
17 SÃO JOÃO DA CRUZ. Op. cit., III, XVI, 4.
18 Idem, III, XVI, 2.
19 Idem, III, IV, 1.

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Fonte
Site https://padrepauloricardo.org/

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