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A Perspetiva de Morrer

«Que a brevidade da vida nos ensine a sabedoria», diz o Salmo 89. Num célebre comentário, o Dr. Johnston afirmou que a morte concentra maravilhosamente a mente, acrescentando, com um característico senso comum, que uma boa vida prepara para uma morte feliz. Quando ficamos a saber que a morte pode chegar a qualquer momento, simplifica-se o foco do nosso coração. Mas se, apesar da fraqueza humana, tivermos procurado viver com generosidade, a morte pode ser enfrentada com uma surpreendente calma.

É certo que o corpo e o espírito ainda se debaterão. Pode haver algum choque e fúria. Todos gostam de controlar a própria vida, mas eu entro agora num período em que o controlo já não resultará. À medida que a morte se aproximar, haverá momentos de um vazio desamparado e de ter de depender fisicamente de outros. O hábito da autossuficiência, tão profundamente enraizado em cada pessoa, cairá por terra. Terei então necessidade de algo maior e mais profundo.

É possível, mesmo para alguém com uma crença religiosa, encontrar uma força tranquila à medida que a morte se anuncia. Para quem viveu pequenas formas de morte ao longo dos anos, este deixar ir não será totalmente desconhecido. Sempre que o ego aprende a doar-se, ou experimenta amor, os músculos da autoentrega são exercitados. Ficamos desta forma habituados a morrer antes que a própria morte por fim chegue. O escritor francês Albert Camus, que não tinha fé, escreveu acerca da capacidade de transcender a tragédia:

No meio das lágrimas, encontrei dentro de mim
um sorriso invencível.
No meio do caos, encontrei dentro de mim
uma calma invencível.
No meio do inverno, encontrei dentro de mim
um verão invencível.

Se pudermos aprender a morrer muito antes de vermos a morte face a face, a fé faz destas transformações parte de um drama divino. A maior diferença é o facto de eu já não estar só. Escutemos S. Paulo: «mesmo se, em nós, o homem exterior vai caminhando para a ruína» (2 Cor 4, 16), «sei em quem acreditei» (2 Tm 1, 12), Ele «me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20). Será que este sentimento de se estar acompanhado por Cristo torna a angústia humana mais fácil de suportar? Nem sempre. A fé não suprime a dor física nem um sentimento de abandono. Mas, mesmo nos momentos de fragilidade, a fé oferece uma promessa da parte de Deus: «se caminhares pelo fogo, não tenhas medo, que Eu estou contigo» (Is 43, 2.5).

Ainda não foi mencionada a principal realidade cristã: a ressurreição de Jesus é obviamente a nossa fonte decisiva de uma nova coragem perante a morte. O filósofo Wittgenstein disse-o com acerto: «é o amor que acredita na ressurreição». A fé na ressurreição implica mais do que a aceitação de um único evento físico. A ressurreição de Jesus é a promessa de amor que Deus nos faz. Ela abre uma perspetiva radicalmente diferente da vida e da morte, revelando um Deus da vida que é sempre um inimigo da morte. Oferece uma explosiva nova imagem de quem somos e de para onde vamos. Não somos feitos para a finalidade da morte, mas para a plenitude de vida, aqui e na outra vida. A revolução da Ressurreição foi capturada pelo poeta Hopkins nestas linhas complexas:

Para longe o arquejo da dor, os dias abatidos,
o desalento.
Através do meu convés naufragado brilhou
um farol, um eterno raio de luz.
Num instante, ao toque da trombeta,
eu sou de repente o que Cristo é,
uma vez que Ele foi o que eu sou, e
este Zé-ninguém, esta anedota, pobre caco, remendo, fragmento, diamante imortal,
é diamante imortal.

Estas linhas evocam o fim da lamentação ou do pânico, como acontece num navio que se afunda, e a experiência de uma luz que transforma o que eu sou. Se Cristo Se fez um de nós, e se agora temos parte na sua ressurreição, então já não somos eus frágeis e inúteis, onde a humanidade quase parece uma anedota. Somos «diamante imortal», tesouros de beleza por toda a eternidade.

Na visão do Evangelho de S. João, a eternidade começou já aqui. Ele repete uma e outra vez que «aquele que crê tem a vida eterna» (Jo 6, 47). Acreditar em Cristo e procurar viver como Ele torna-se uma «fonte de água que dá a vida eterna» (Jo 4, 14). As sementes da eternidade estão já presentes, florescendo, dando frutos, e tudo isto é possível quando vivemos com amor: «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos» (1 Jo 3, 14). «Todos nós participamos da sua plenitude» (Jo 1, 16). Se eu receber o dom, o que Deus está a fazer em mim aqui e agora inicia-me numa plenitude que continua para lá da morte. O movimento rumo ao Céu está já a acontecer.

Tudo isto pode soar a demasiado espiritual quando alguém é confrontado com um declínio quotidiano de energia. E, no entanto, a música da fé pode ser escutada até nos tempos mais escuros. Quando me aproximo já da morte, pode ser que se façam sentir a fraqueza e a perturbação, mas espero ter a liberdade de me abandonar nas mãos de Deus, para que o morrer possa ser um orante deixar-me ir. Podem estar lá feridas por resolver ou esperanças por cumprir, ou preocupações a respeito de quem fica para trás. Mas a gratidão e a paz vêm de termos representado algo importante para algumas pessoas durante a nossa vida. E, acima de tudo, da confiança de que o Senhor Ressuscitado nos conduzirá agora por entre esse escuro limiar.

O processo externo da morte pode ser assustador, mas quero eu de facto ficar aqui para sempre? Se escutar o meu coração, saberei que sou feito para mais vida do que posso imaginar. Quando a promessa de Deus vence os meus medos, o que S. Paulo chama de «último inimigo» passa a ser um amigo inesperado.

Texto: Michael Paul Gallagher, s.j.

"Deus vos abençoe!!!"
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